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19 de Outubro de 2019

Dia do Cliente e o mínimo que se espera de um (a) advogado (a)

Tenho feito uma reflexão bastante profunda sobre a advocacia, sobre o escritório que faço parte e mapeando com base numa premissa básica: o que podemos fazer para melhorar a experiência do nosso cliente no serviço jurídico e jurisdicional (são coisas distintas).

Thiago Noronha Vieira, Advogado
Publicado por Thiago Noronha Vieira
mês passado

(Foto: Acervo Pessoal | Evento: Cafezinho | Fotógrafo @AndreyWallace)

15 de setembro, dia do cliente! Esta é uma data costumeiramente comemorada, com os perfis profissionais e institucionais falando frases como “cliente, nosso maior compromisso é a sua satisfação” e outras amenidades para criar algum tipo de relação com a outra ponta.

Relação. Essa é, talvez, a principal frase que trataremos neste artigo. Tenho feito uma reflexão bastante profunda sobre a advocacia, sobre o escritório que faço parte e mapeando com base numa premissa básica: o que podemos fazer para melhorar a experiência do nosso cliente no serviço jurídico e jurisdicional (são coisas distintas).

Recomendo a leitura deste artigo anterior: Sucesso do cliente: por que isso é importante para minha advocacia?

Este artigo tem uma ideia de ser mais reflexivo e menos voltado para uma receita de bolo ou fórmula pronta do sucesso. Aliás, pessoalmente, sou uma pessoa que não acredita muito em “receitas do sucesso” ou “05 passos para fazer sua advocacia decolar” e essas porcarias que tentam nos empurrar em troca do nosso e-mail. Se você espera isso, por favor, pode encerrar a leitura por aqui.

(Foto: Instagram | Gabriela Pereira @seujuridicoimobiliario)

Pois bem, se você pulou para este parágrafo assumo que minimamente tem interesse em melhorar o serviço prestado na advocacia. Recentemente, durante a 7ª reunião trimestral de balanço e planejamento do meu escritório, meu sócio, Saulo Álvares (@sauloalvares), comentou uma publicação (clica aqui) da Gabriela Pereira (@seujuridicoimobiliario).

Não vou replicar integralmente a publicação da Gabriela, mas este foi o ponto de partida da reflexão que venho fazendo. Basicamente, ela fala sobre ter dedicado 08 (oito) anos da vida dela ao aprimoramento e conteúdo jurídico. Neste tempo, segundo ela, investiu na pós-graduação, no mestrado, além de uma série de cursos e atividades paralelas para construir a base para hoje estar alçando voos na exposição via marketing jurídico.

Esse trecho aqui merece citação: “Se sua base é jurídica, primeiro você precisa ser bom no jurídico, depois você deverá ser bom no marketing e não a ordem contrária. Sem conteúdo ninguém se sustenta. ACORDA!” (Grifei).

Ela traz uma crítica real e sincera de uma questão preocupante: o excesso de marketing na advocacia, em verdade, no mundo jurídico em geral.

Ali em cima quando falei que sou contra fórmula prontas, também tenho severas críticas ao excesso de marketing e ao charlatanismo. Antes que seja apedrejado e crucificado nesse saite, quando falo sobre charlatanismo eu me refiro a pessoas que vendem algo que não são. Por exemplo, alguém que vende um curso sobre como passar na OAB, sendo que essa pessoa nunca passou (acreditem, existe esse tipo de coisa, deem um google!).

Porém, tem um aspecto do relato da Gabriela que me trouxe uma reflexão e uma crítica ainda mais profunda. Particularmente, acredito que, um (a) bom (a) advogado (a), é formado por 20% de técnica e conteúdo jurídico e 80% de todo o resto (organização, planejamento, marketing, relacionamento, posicionamento, etc.). Eu expus essa opinião no perfil dela e ela discordou dos percentuais. Beleza, faz parte a divergência.

A minha linha de raciocínio por trás, entretanto, casa com a linha de pensamento dela. Perceba, para ser advogado é preciso passar 05 (cinco) anos, no mínimo, da sua vida nos bancos de uma universidade. É preciso, ainda, passar pelo Exame de Ordem da OAB que é uma barreira. Depois, existe todo um universo particular que é lidar com o judiciário, com o cliente, com as diversas áreas e, no meio desse mar de oportunidades e dificuldades, posicionar-se. Na minha cabeça, quem pega a “vermelhinha” já é um vitorioso, do ponto de vista jurídico.

A carga jurídica, o conteúdo técnico, já foi construído ao longo de sua trajetória.

Aqui, voltamos ao título deste artigo: o mínimo que um cliente espera de você é a precisão e saber técnico-jurídico.

Vou repetir: o mínimo.

Se pudesse dar uma dica a alguém recém-formado ou recém-ingresso na OAB é: dedique parte do seu tempo a desenvolver outras habilidades diferentes do saber jurídico. Faça um curso de oratória, inteligência emocional, negociação, planejamento financeiro, improviso (é sério!). Essas habilidades não foram ensinadas (normalmente) nos bancos das universidades e são coisas que compõem aqueles 80% que falei.

Convenhamos, seu cliente não quer saber se você pós-doutorando em ciências criminais se a dor dele é um Habeas Corpus por furto. Ou que você faz parte do Instituto Num Sei das Quantas de Direito de Família se ele quer apenas um divórcio consensual. Com isso, não quero dizer que o saber jurídico não é importante ou que você deve negligenciar isso.

Calma, não é isso amiguinho (a)!

Quero dizer, outra dura verdade: saber jurídico é a base. Para ser um (a) advogado (a) mediano (a) você deve ser um excelente jurista. Para ser um (a) excelente advogado (a), você deve ser um excelente jurista e bom em muitas outras coisas!

Estamos numa Era, repito, de relacionamento. Ser aquele (a) advogado (a) que fica em seu escritório numa sala de um edifício empresarial no centro cumprindo prazos enquanto o cliente, espontaneamente, te procura com uma demanda está chegando ao fim. A advocacia de hoje exige saberes que vão além do técnico, do jurídico. Quem não enxergar isso está fadado a sumir!

Parece alarmista, mas é uma realidade. Vocês já se deram conta disso?

Entender a dor do seu cliente e compreender que ela está para além do processo é tarefa contínua, trabalhosa e para poucos. Por vezes, fico aqui com meus demônios pensando nessas coisas, fritando meus neurônios e este espaço é onde sinto-me livre para liberar em busca, quem sabe, de um ou outro que partilhe ou reflita sobre essas questões. Artigos como este dificilmente bombam, sei disso.

Mas não estou, assim como na advocacia, por likes. Estou para trazer reflexões externas e internas. Nesse dia do cliente, reserve um tempo para pensar o rumo da sua advocacia frente ao que seu (sua) cliente espera!

(Há) Braços!

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Thiago Noronha Vieira | E-mail: thiagonoronha@acnlaw.com.br

Advogado. Sócio do Álvares Carvalho & Noronha – Advocacia Especializada (ACNLaw). Pós-Graduado em Direito Empresarial pela PUC/MG. Presidente da Comissão de Direito Privado e Empreendedorismo Jurídico da OAB/SE. Diretor Jurídico do Conselho de Jovens Empreendedores de Sergipe (CJE/SE).

Siga-me no instagram @thiago.nvieira

8 Comentários

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Gostei do texto Dr., já discordamos de outros assuntos e mantemos o respeito, admiro seu trabalho da mesma forma. Esse artigo prova que somos vários profissionais em um, mesmo que muitas pessoas não pensem da mesma forma continuar lendo

Obrigado pela leitura e pelo comentário.

De fato, discordamos naquela oportunidade do artigo sobre gratuidade judiciária, mas sou um democrata. E a essência da democracia é discordar e, eventualmente, mudar de posição, ceder, repensar.

Defenderei com unhas e dentes do seu direito de discordar de mim e falar o que pensa. Mais uma vez, obrigado por vir aqui e dedicar parte do seu domingo a também comentar. Significa muito.

(Há) Braços! continuar lendo

Ótimo texto! Obrigada pela reflexão. continuar lendo

Obrigado você pela leitura e pelo comentário, significa muito! ^_^ continuar lendo

Dr ThIago, o senhor muito bem coloca sobre algo que, de uma certa forma, atinge diretamente aos senhores (advogados) e, mesmo que indiretamente, aos clientes (eu). A meu ver, em todas as profissões, a base de tudo é o REAL conhecimento do que se propõe a fazer, depois vem o SABER da divulgação (marketing) para seu "público" (clientes), pois conheço muitos bons profissionais péssimos em saber "vender seu peixe". Simbolicamente, hoje (15) é o Dia do Consumidor , consequentemente, deveria ser um dia dedicado mais para reflexões (é o que o senhor está fazendo, com seu belo artigo), dos senhores advogados, principalmente a que o senhor tão bem também QUESTIONA (Dra. Gabriela), a respeito dos "pensamentos" dela, assim como eu. Tá certo, que existem muitos profissionais gabaritados e inteligentes, mas PÉSSIMOS em marketing e, outros tantos, com poucos conhecimentos em suas áreas, mas "espertalhões", quando o assunto é "vender seu peixe". O ideal seria ter-se as duas coisas juntas (conhecimentos profissionais+marketing), ou pelo menos "contratar" alguém pra fazer o marketing, não se esquecendo aí a figura mais importante a ser atingida: O CLIENTE... continuar lendo

O mundo ideal é conseguir conjugar ambos, mas no mundo real acaba sendo muito difícil. Porque não somos perfeitos, afinal perfeição é utopia.

Obrigado pelo teu comentário, meu nobre! continuar lendo

Excelente !
Não podemos tomar a dor do cliente, mas sim entende-las. A responsabilidade é muito grande independente da área de atuação, estamos trabalhando com vidas, e um erro mínimo podemos acabar com o direito (ou a vida) de uma pessoa. Excelente artigo. Rogo por mais advogados humanizados. continuar lendo

Obrigado pelo seu comentário, nobre Enzo.

Forte abraço! continuar lendo